Campinas consolidou no primeiro semestre de 2026 o melhor desempenho em captação de investimento para startups de deep tech — empresas fundadas a partir de pesquisa científica ou engenharia avançada — entre os polos brasileiros fora de São Paulo capital. Levantamento feito pelo Laboratória com base em registros públicos de rodadas e entrevistas com fundos de venture capital aponta R$ 420 milhões investidos em 23 operações, superando em 34% o mesmo período de 2025.
O crescimento não é uniforme. Mais da metade do volume está concentrado em duas áreas: semicondutores e componentes para energia (R$ 178 milhões) e biotecnologia aplicada à agricultura (R$ 112 milhões). As demais rodadas se distribuem entre instrumentação científica, materiais compostos e software industrial — todos segmentos em que a Unicamp e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) mantêm grupos de pesquisa de referência.
Por que Campinas
A explicação mais citada por investidores e fundadores é a combinação de proximidade acadêmica e infraestrutura já instalada. O Parque Tecnológico de Campinas abriga a incubadora Inova Unicamp, o Instituto de Pesquisas Eldorado e dezenas de laboratórios compartilhados que permitem a uma startup de cinco pessoas acessar equipamento que custaria milhões para adquirir.
"Não é só a universidade. É a rede: fornecedores, advogados que entendem de propriedade intelectual, fundos que já investiram em três empresas do mesmo professor-orientador", resume Ana Beatriz Nogueira, sócia da Cerrado Ventures, fundo com sede no interior paulista que liderou duas das maiores rodadas do semestre.
Um caso emblemático é o da ChipPlan, spin-off de um laboratório de microeletrônica da Unicamp que desenvolve circuitos de potência para carregadores de veículos elétricos. A empresa fechou em maio uma Série A de R$ 65 milhões com participação de fundos nacionais e um investidor estratégico da Alemanha. O CEO, engenheiro Felipe Dantas, formou-se no programa de pós-graduação onde a tecnologia foi desenvolvida e manteve contrato de consultoria com o grupo de pesquisa durante os dois primeiros anos da startup.
"Sem o laboratório da universidade, levaríamos o dobro do tempo para validar o protótipo. Mas sem a rodada, não teríamos como sair do papel", afirma Dantas.
Gargalos que persistem
Apesar do otimismo, fundadores entrevistados listam obstáculos recorrentes. O primeiro é regulatório: empresas de biotecnologia agrícola relatam demora de 18 a 24 meses para obter registros em órgãos federais, o que inviabiliza cronogramas de investidores acostumados a ciclos mais curtos. "O investidor americano não entende por que uma startup brasileira precisa de dois anos só para poder testar em campo", diz Marina Souto, fundadora da AgroGene, que trabalha com edição genética de plantas para resistência à seca.
O segundo gargalo é a contratação de talentos estrangeiros. Vistos de trabalho para pesquisadores seniores podem levar seis meses, e a burocracia bancária para abertura de conta de empresa com sócio estrangeiro ainda gera atrasos, segundo relatos de três startups consultadas.
O terceiro ponto, mais estrutural, diz respeito à concentração. Campinas cresce, mas o interior de São Paulo fora do eixo Campinas-Ribeirão Preto continua com captação modesta. Dados da Associação Brasileira de Startups mostram que apenas 8% das rodadas de deep tech no estado ocorreram em cidades com menos de 200 mil habitantes no semestre.
O papel das incubadoras
As incubadoras da região adaptaram seus programas para acompanhar a sofisticação das empresas. A Inova Unicamp lançou em abril uma trilha específica para startups que já faturam e buscam escalar para mercados externos, com mentoria em compliance internacional e propriedade intelectual. O CPqD, por sua vez, ampliou o acesso a laboratórios de teste de telecomunicações para empresas que não nasceram dentro da instituição, mediante pagamento por uso.
Para o professor de economia da Unicamp Carlos Américo Pacheco, a lição do semestre é clara: "Campinas funciona porque a pesquisa básica nunca foi tratada como luxo. As startups são consequência, não ponto de partida." Pacheco coordena um estudo longitudinal sobre transferência de tecnologia que acompanha spin-offs da universidade desde 2010.
O estudo, ainda em revisão, indica que empresas fundadas por ex-alunos de programas de doutorado têm taxa de sobrevivência em cinco anos de 62%, contra 38% da média nacional para startups de tecnologia. A diferença, segundo Pacheco, está na profundidade técnica e na rede de contatos construída durante a formação.
Perspectivas para o segundo semestre
Fundos de investimento ouvidos pelo Laboratória indicam pipeline ativo para o segundo semestre, com pelo menos quatro rodadas em due diligence avançada. O tema de semicondutores deve continuar em destaque, impulsionado pela política federal de incentivo à fabricação nacional de chips e pela demanda de montadoras de veículos elétricos instaladas no estado.
Em contrapartida, analistas alertam que parte do crescimento de 2026 reflete janelas de investimento que podem se fechar se a taxa de juros internacional permanecer elevada. "O dinheiro está vindo, mas ficou mais exigente. Due diligence que levava um mês agora leva três", observa Nogueira, da Cerrado Ventures.
Para o ecossistema de Campinas, o desafio de médio prazo é provar que o modelo se sustenta além das rodadas iniciais — convertendo empresas promissoras em negócios que exportam, geram emprego qualificado e devolvem à universidade o ciclo de inovação que as originou.