A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) publicou nesta segunda-feira o edital que destinará até R$ 180 milhões à criação e consolidação de Centros de Pesquisa em Tecnologias Emergentes (CPTec). O programa, batizado internamente de "Ponte Laboratório-Indústria", representa um dos maiores aportes estaduais em pesquisa aplicada dos últimos cinco anos e reflete uma mudança de ênfase na política de fomento paulista.
Segundo o documento, cada centro aprovado poderá receber entre R$ 12 milhões e R$ 25 milhões ao longo de cinco anos, com possibilidade de prorrogação por mais dois anos mediante avaliação de resultados. Os recursos cobrem equipamentos, bolsas, despesas de campo e custeio administrativo, mas exigem contrapartida institucional mínima de 20% por parte das universidades ou institutos proponentes.
Quem pode participar
O edital é aberto a pesquisadores vinculados a instituições de ensino superior ou de pesquisa sediadas em São Paulo. No entanto, a FAPESP permite a participação de investigadores de outras unidades da federação como colaboradores, desde que o centro proponente tenha sede no estado. Essa flexibilidade foi incluída após consulta pública realizada em março, na qual gestores de universidades federais argumentaram que a restrição geográfica limitaria a capacidade de montar equipes multidisciplinares de ponta.
Cada proposta deve reunir no mínimo três grupos de pesquisa de áreas distintas e indicar pelo menos um parceiro do setor produtivo — empresa, cooperativa ou órgão público com demanda tecnológica identificada. A transferência de tecnologia não precisa se materializar em patente ou spin-off, mas o plano de trabalho deve prever entregáveis concretos, como protótipos, processos validados ou relatórios técnicos utilizáveis pelo parceiro.
"Não estamos financiando mais um laboratório isolado. O centro precisa demonstrar que existe um problema real esperando solução do outro lado da ponte", disse à reportagem o diretor científico da FAPESP, professor Marcos Vinícius Almeida.
Áreas prioritárias e cronograma
O edital lista seis áreas prioritárias: biotecnologia e saúde, energia e transição climática, agricultura de precisão, materiais avançados, inteligência artificial aplicada e instrumentação científica. Propostas em outras áreas serão aceitas, mas receberão pontuação adicional se se enquadrarem nas prioridades.
As pré-propostas devem ser enviadas pelo sistema SAGe até 15 de agosto de 2026. Após análise de admissibilidade, os grupos selecionados terão até 30 de novembro para apresentar a proposta completa, incluindo orçamento detalhado e cartas de anuência dos parceiros institucionais e industriais. O resultado final está previsto para fevereiro de 2027, com início dos projetos em março.
Reações do meio acadêmico
Em entrevista ao Laboratória, a pró-reitora de pesquisa da Unicamp, Dra. Fernanda Okada, avaliou o edital como "coerente com a maturidade do ecossistema paulista", mas alertou para o risco de sobrecarga administrativa nos grupos aprovados. "Montar um centro desse porte exige gestão profissional. Nem todo pesquisador excelente é um gestor excelente", observou.
Já representantes de universidades estaduais do interior, como a Unesp e a UFSCar, veem no programa uma oportunidade de ampliar parcerias que hoje dependem quase exclusivamente de recursos federais do CNPq. "A FAPESP está dizendo que quer resultados visíveis em prazo definido. Isso muda a forma como planejamos nossas linhas de pesquisa", afirmou o coordenador do programa de pós-graduação em engenharia de materiais da UFSCar, professor Ricardo Meneghetti.
Para pesquisadores de estados sem fundação equivalente, o edital reforça uma tendência já observada em programas anteriores: a concentração de recursos de pesquisa aplicada no eixo São Paulo. Dados do Observatório de Fomento à Ciência mostram que, em 2025, São Paulo respondeu por 38% de todo o financiamento estadual à pesquisa no Brasil.
O que muda na prática
Analistas consultados pelo Laboratória destacam três efeitos prováveis do programa. O primeiro é a formalização de parcerias que hoje funcionam de maneira informal — um pesquisador que já colabora com uma empresa poderá estruturar essa relação dentro de um centro com financiamento estável. O segundo é a pressão por indicadores de impacto: ao final dos cinco anos, os centros serão avaliados por publicações, patentes, contratos de consultoria e formação de recursos humanos.
O terceiro efeito, mais sutil, diz respeito à cultura de submissão de propostas. Editores de agências de fomento relatam que, após a publicação de editais dessa magnitude, o número de pré-propostas costuma superar em cinco a seis vezes as vagas disponíveis, o que eleva o nível de competitividade e, paradoxalmente, pode desestimular grupos menores.
A FAPESP informou que realizará três webinars explicativos entre junho e julho, com transmissão aberta e gravação disponível no canal da fundação. O edital completo, incluindo formulários e critérios de avaliação, está publicado no site oficial da fundação.